Sobre o Seminário

Apresentação

Dentro da perspectiva das artes visuais, observamos que historicamente existe uma intersecção entre sexualidade e a prática artística que perpassa a nudez e/ou o erotismo, consequentemente, o corpo e tantas outras questões. Tais conteúdos, nos fazem observar como, a partir da historiografia e da prática artística, acontece a intersecção dessas temáticas. Aliás, pretendemos outras conexões: pensar para além da nudez ou do erótico. Pretendemos o explícito, o vulgar, o profano, a marginalização, a inquietude social provocada pelos trabalhos sexuais. Precisamos falar em pluralidade, ou seja, feminismos, corpos dissidentes, teoria queer e como estas ressignificam a arte e a sexualidade.

Retomamos Michel Foucault em seu primeiro volume sobre a história da sexualidade e como este aponta os caminhos que a sexualidade perpassou dentro da sociedade ocidental para chegarmos onde estamos. O francês nos mostra como as relações entre a vontade do saber, a produção de verdade e o poder se manifestam através do dispositivo de sexualidade1, ou seja, percebemos como a estruturação social se deu, também, a partir da sexualidade. 

Com isso, nos vêm em mente algumas perguntas que muitas vezes nos levam a refletir sobre determinado tema: O quê? Como? Quando? Onde? Quem? Destacamos: “Como?” e “Quem?” para pensar as intersecções entre arte, sexualidade e pornografia. 

Como? Através dos discursos. A sexualidade se dá através dessa prática, independente de qual instituição a exerce. No caso, seja pelo Estado ou pela Igreja, a sexualidade se constrói no discurso, seja na incitação ou na confissão. Foucault fala que

o essencial é a multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vez mais; obstinação das instâncias de poder a ouvir falar e a fazê-lo falar ele próprio sob a forma da articulação explícita e do detalhe infinitamente acumulado.

Michel Foucault (p. 20)

Neste caso, o autor em sua obra tem como tema, além da sexualidade, o poder e como ele se estabelece na sociedade ocidental. Seu pensamento nos leva a refletir sobre como a sexualidade se dá através do discurso na arte, seja através da produção artística seja da teórica. Como os discursos artísticos contribuem na formação sexual da sociedade ocidental?

Seguindo a questão do “Como?”, somos levados a outra questão: “Quem?”. Quem fala sobre sexualidade? Sabemos que de alguma forma qualquer pessoa pode falar sobre sua sexualidade, mesmo que, em alguns momentos, receba críticas ou seja mal vista. Mas ela tem o direito de expressar, assim como, praticar (ou não) sua sexualidade. O discurso é tão importante que – como destacamos acima através de Foucault – é incitado, mas dentro de perspectivas dominantes. 

Neste sentido, o discurso da sexualidade através da arte é importante para pensarmos nossas sociedades. Observar como artistes se expressam através de seus trabalhos, como a crítica se comporta e, consequentemente, como as instituições abordam essas questões.  

Nos estudos artísticos e culturais, costumamos nomear a temática sexual a partir de seu “valor estético”, aquilo que é visualmente agradável e aceitável perante a sociedade. Aquilo que é culto e "digno de ser estudado" é denominado de erótico e aquilo que é sujo, popular, explícito e incômodo chama-se pornográfico. Susan Sontag mostra em seu artigo A Imaginação Pornográfica2 a diferença de tratamento nas artes e na literatura quanto aos rótulos que as obras ganham e a diferença entre o erótico e o pornográfico. Sontag diz que uma das grandes questões é o rebaixamento da arte pornográfica em relação ao erótico e isso se dá a partir do argumento conservador de que a pornografia além de “suja” é irreal. Para rebater isso, a autora traz exemplos da ficção literária que também são repletos de situações e assuntos não reais:

Não há nada de conclusivo no fato bem conhecido de que a maioria dos homens e das mulheres não é capaz das proezas sexuais que as pessoas aparentam desempenhar na pornografia; que o tamanho dos órgãos, o número e a duração de orgasmos, a variedade e a praticabilidade dos poderes sexuais, bem como o total de energia sexual são grosseiramente exagerados. É correto, da mesma maneira, que as naves espaciais e os incontáveis planetas retratados nos romances de ficção científica também não existem. O fato de que o espaço da narrativa é um topos ideal não desqualifica nem a pornografia, nem a ficção ciêntifica de sua literatura.

Susan Sontag (p. 55)

Com isso, percebemos que o argumento para a inferiorização da pornografia, pelo fato de não ser realista, é falho. Sontag utiliza o termo pop para se referir a pornografia e assim, observamos novamente a estrutura de poder sobre qual sexualidade podemos ou não falar, a que é moralmente admitida ou a aceita pela academia nas salas de aula da graduação e pós-graduação. 

Assim, chegamos a temáticas que estão ganhando cada vez mais importância nas pesquisas acadêmicas latinoamericanas: a teoria queer e a contrassexualidade. No caso deste último tema, ele nos é apresentado pelo filósofo espanhol Paul B. Preciado, no livro Manifesto Contrassexual, no qual ele faz uma revisitação à obra de Foucault, entre outres autores Como o próprio autor destaca: a contrassexualidade “não é uma natureza por vir, mas a ressignificação da natureza” (PRECIADO, 2017, p. 25)3, ou seja, tudo que o francês apontou para pensar o dispositivo de sexualidade deve ser pensado e repensado, pois é, também, através deste dispositivo que a estrutura social se forma. Afirmando ou negando sexualidades. De acordo com a teórica e ensaísta Heloisa Buarque de Hollanda, Preciado é um dos teóricos mais influentes na América Latina contemporânea, justamente por ter um pensamento extremamente decolonial. “Juntando a ideia do patriarcado, racismo e colonialismo, o autor é um crítico das estruturas institucionais”.4 

É nesse contexto que lançamos a proposta de pensarmos discursos e dispositivos que partem de perspectivas interseccionadas entre artes visuais, sexualidades, contrassexualidades, pornografias e pós-pornografias e todas as questões que partem ou se conectam com os temas do congresso. Como também nas diversas esferas que estamos inserides. Seja na academia, nos museus, galerias, produções artísticas e todas propagandas e outras mídias existentes.


1. História da Sexualidade 1 - a vontade de saber, Michel Foucault. Tradução de Maria Thereza da Costa Alburquerque e J. A. Guilhon Alburquerque. 8ª edição. Rio de Janeiro/São Paulo. Paz e Terra, 2019, p. 85.
2. A Imaginação Pornográfica in. A Vontade Radical: estilos, Susan Sontag. Tradução João Roberto Martins Filho. São Paulo. Companhia das Letras, 2015, p. 44.
3. Manifesto Contrassexual, Paul B. Preciado. Tradução Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo. n-1 edições, 2017.
4. Fala retirada da entrevista Feminismo neoliberal deixa os 99% para trás, diz Heloísa Buarque de Hollanda feita pelo programa Ilustríssima Conversa disponível no link: https://open.spotify.com/episode/33wrNCCEtlxtGs4YYIs8WF?si=iYV25EuSSCaQbp9tKt_ndQ

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