Decomposição

Decompor nada mais é do que separar elementos que constituem alguma coisa, seja um corpo, uma corpa, ume corpe. Nesse sentido, as contraproduções filosóficas bichas, sapatão, queer, trans, negras e indígenas vêm apontando que o corpo branco hetéro classista capacitista é um composição elaborada discursivamente a serviço das lógicas que estruturam nossa sociedade e por sua vez sujeitam corpa.e.o.s por meio de dispositivos discursivos e práticos institucionalizados a fim de precarizar, regrar e punir corpas-outras. No entanto, mesmo expostas e vivendos nessas situações, são também resistência, afirmando-se como sujeitas ativas de suas próprias histórias.

Decomposição 01
Em busca de uma trilogia

Chegamos a edição 2023 do Ars Sexualis. O terceiro ano do nosso Seminário Internacional de Artes Visuais. Já não podemos nos dizer mais principiantes na realização deste evento, como quando o realizamos pela primeira vez em 2020, durante uma pandemia mundial. Tínhamos muitas dúvidas sobre como realizá-lo, o que fazer, como fazer, mas uma certeza nos acompanhava: o desejo de trazer as temáticas da arte e sexualidade de uma forma que, até então, não havia sido pensada. Na época, também não sabíamos se seria apenas aquela edição ou se outras viriam, mas isto não era a nossa preocupação naquele momento, mas sim realizar um evento aberto a todas as pessoas em diferentes níveis acadêmicos (graduação, pós-graduação, pós-doc…), em diferentes marcadores sociais e também que pudesse alcançar todas as regiões do país e o quão felizes ficamos quando constatamos que estes desejos tornaram-se realidade. O Ars Sexualis 2021 teve seus acertos e seus erros – partes dos processos de um evento que deixava de ser uma ideia para se tornar uma concretude – mas que conseguimos, durante 3 dias, falar, pensar, refletir, questionar arte e sexualidade sob diversas camadas e de diferentes maneiras: grupos temáticos, mesas de debates, lançamentos de livros e a Mostra Digital Ars Sexualis. E diante das dúvidas que tínhamos e das barreiras que haviam sido colocadas, conseguimos que o Ars Sexualis saísse do campo das ideias com muito sucesso. Sorte de principiantes? NÃO!!!! Dedicação, esforço e muita vontade de provocar outros debates no que se refere às artes e às sexualidades.

 

Em 2022, resolvemos dar continuidade e realizar uma nova edição e como na primeira, as dúvidas nos acompanhavam. Valia a pena manter ou deixar apenas na sua primeira edição e aceitar que era isto nosso seminário, uma foda de uma noite só? Mas somos guloses e resolvemos arriscar mais uma vez. Tivemos grupos temáticos, mesas de debates e palestras, a Mostra Digital Ars Sexualis e, apesar de não termos alcançado o mesmo número de submissões do ano anterior, alcançamos uma internacionalização do evento com a participação de convidades de Portugal e França. Sem falar, na bem recebida primeira exposição presencial e internacional do Ars Sexualis, realizada na Pinacoteca do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com muito sucesso, trazendo obras de artistes de diferentes regiões do Brasil, além de artistes de outros países como Espanha, França, EUA, Portugal e Chile.

Tudo isto nos levou a decidir que uma terceira edição do Ars Sexualis é bem-vinda. Trilogias são sempre bem-vindas (ou não?). Agora, em novos contextos, pós-pandemia, em um novo governo, com novos respiros e é sob estes outros ares que apresentamos a temática do Ars Sexualis - Seminário Internacional de Artes Visuais 2023, Decomposições artísticas (eco)interseccionais: outras práticas corporais e sexuais.

 

Os seis últimos anos (2017 a 2022) foram de destruição e mortes. Chegamos a 2023 e, de alguma forma, conseguimos sobreviver e agora, precisamos correr atrás do prejuízo – e não são poucos. O Brasil está devastado na política, na cultura, nas artes, nos patrimônios, nos povos, nas matas e florestas, nas universidades, nos discursos. Diante de tudo isto, qual o nosso papel, enquanto artistas, estudantes, pesquisadoras, criadoras e afins? O que interseccionalidade e ecologia podem nos interessar para a realização de um seminário que trata de arte e sexualidade?

Decomposição 02
Manifesto Mogli Saura

Convocamos Ana Mogli Saura [1] - artiste, pesquisadore, performer, cantore, escritore brasileire – e seu texto Modos Artísticos em intersecções ecológicas: ecomonstruosidades pelo fim do mundo humano, entre povos da terra e grupos dissidentes (2021) para nos ajudar a pensar possibilidades de respostas a tais perguntas.

 

Extrato 01: Mogli nos alerta que seu texto é um recorte vivencial, político e afetivo, no qual trato de modos artísticos - e artistas - que transitam por territórios aos quais denomino eco-interseccionais. São enunciações ético-políticas diversas que combinam processos crítico-criativos de modo propositivo, manejando rupturas às sistemáticas do poder hegemônico colonial, a partir de perspectivas dissidentes e combatentes às normas (p. 36). 

 

Extrato 02: Mais adiante, Mogli explica que Ecologia é um amplo e ramificado conceito. Quando se pesquisa sobre o assunto, o que se vê é a linha dessa ficção/história ocidental que vai tratar da abordagem sobre temas relativos à natureza e à história natural que vão desde as postulações filosóficas na Grécia até uma variedade de segmentos disciplinares e cientificistas como a botânica biologia animal, cadeia alimentar, microscopia e etc. Percorre séculos até chegar a essa noção base e aglutinadora que temos hoje de ecologia como organização sistêmica, dinâmicas e qualidades relacionais entre diferentes elementos, interação dos organismos em seu meio ambiente e suas comunidades. Tratar desse tema pode ser, se assim desejado, tratar de toda a realidade existencial, da realidade como a concebemos e podemos perceber (p. 42).

 

Extrato 03: E sobre ecologia interseccional, Mogli manifesta-se. Trata-se (mais) de integrar ao máximo, a esse conceito, noções outras, que estão às margens da produção de saberes ecológicos. Trata-se também, de trazer a posição de uma pessoa racializada e não binária, que é atravessada e composta (e decomposta) pelos espaços e movimentos em dissidência e dissonância com as lógicas de formatação humano-normativa. Leia-se: uma corpa que, desde jovem, desviou do desejo de aceder à universidade como lugar de prestígio, que não se formalizou para o mercado de trabalho, que logo rechaçou a hetero-normatividade e a monogamia, que não se convenceu pela cis-compulsoriedade, nem pelo mito de docilização da mestiçagem. Falo como alguém que, desde cedo, investiu sua força na criação de espaços de compartilhamento e experimentação para outros modos de sociabilização, que se forjou pela contracultura anarquista, pelas okupações, pela antiarte, pelo movimento kuir e pela Permacultura (p. 42).

 

A proposta de uma ecologia-interseccional passa pela criação experimental e indisciplinar da tentativa de fermentação, diluição (sutilizada) e multiplicação (variada) da (possibilidade de incorporar a) categoria “ecóloga/o”. Essa noção surge de minhas demandas em articular uma percepção (mais) conectiva das implicâncias da(s) vida(s), em escalas diversas, entendendo que os “limiares” interativos tendem a extrapolar a dita cognição humana. Querendo ir muito além da categoria técnica, pretendo viralizar, arrombar, expandir, permear e disseminar a (essa) noção de ecologia. Não se trata de criar moda, mas sim, de assumir uma postura que é urgente: precisamos nos engajar cada vez mais no compromisso expandido da gestão radical de nossas próprias vidas, e isso diz respeito aos modos como apreendemos e co-criamos o real. Ao propor uma ecologia-interseccional, pretendo evocar todos os aspectos (que consigo perceber) da existência implicada, e chamar a atenção para o fato de que estamos sendo alienadamente formatades em relação às interações que nos compõem, tornando-nos mecanismos de um projeto de destruição planetária. (...) o que me cabe, agora (enquanto ser vivente), nos limites de minha percepção, é incitar a compreensão de que os agenciamentos subjetivos e o direcionamento do desejo são uma das chaves importantes para um outro destino, (im)possível. Buscar compreender como a estrutura colonial opera no agenciamento subjetivo (naturalizando e impondo categorias, regras e limites), capturando o desejo e direcionando nossa força vital para seu objetivo, tão alienante quanto destrutivo, tão amargurado quanto insensato (p. 80).

Decomposição 03
Natureza/Corpo/Sonho

Convocamos Ailton Krenak [2] - escritor, jornalista, líder indígena - e seu livro A vida não é útil (2020) para multiplicar as possibilidades.

 

Extrato 01: Krenak nos aponta que alguns povos têm um entendimento de que nossos corpos estão relacionados com tudo o que é vida, que os ciclos da Terra são também os ciclos dos nossos corpos (s/p).

 

Extrato 02: Ailton nos instiga, pois quando pensamos na possibilidade de um tempo além deste, estamos sonhando com um mundo onde nós, humanos, teremos que estar reconfigurados para podermos circular. Vamos ter que produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por esse mundo e nele podermos habitar. Se encararmos as coisas dessa forma, isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma crise, mas uma esperança fantástica, promissora (s/p).

 

Extrato 03: Krenak nos aponta que a ecologia nasceu da preocupação com o fato de que o que buscamos na natureza é finito, mas o nosso desejo é infinito, e, se o nosso desejo não tem limite, então vamos comer este planeta todo e que na floresta não há essa substituição da vida, ela flui, e você, no fluxo, sente a sua pressão. Isso que chamam de natureza deveria ser a interação do nosso corpo com o entorno, em que a gente soubesse de onde vem o que comemos, para onde vai o ar que expiramos. Para além da ideia de “eu sou a natureza”, a consciência de estar vivo deveria nos atravessar de modo que fôssemos capazes de sentir que o rio, a floresta, o vento, as nuvens são nosso espelho na vida (s/p).

Decomposição 04
Ecossexualidades

Convocamos Laura Milano [3] - docente, comunicadora, argentina - e seu livro Usina Pósporno: disidencia sexual, arte y autogestión en la pospornografia (2014) e Annie Sprinkle [4] - diretora, artista visual, estadunidense - e Beth Stephens [5] - diretora, performer, ativista ambiental, estadunidense - autoras do livro Assuming the ecosexual position - Earth as lover (2021).

 

Extrato 01: Annie e Beth nos apresentam o conceito de Ecossexual a partir da palavra eco from ancient Greek oikos; sexual from Latin, sexuales. 1. A person who finds nature romantic, sensual, erotic, or sexy, which can include humans or not. 2. A new sexual identity (self-identified). 3. A person who takes the Earth as their lover. 4. A term used in dating advertisements. 5. An environmental activist strategy. 6. A grassroots movement. 7. A person who has a more expanded concept of what sex and orgasm are beyond mainstream definitions. 8. A person who imagines sex as an ecology that extends beyond the physical body. 9. Other definitions as yet to be determined (p. 2) [6].

 

Extrato 02: Laura nos conta sobre sua experiência junto a Annie e Beth no que chamam de bodas ecossexuais que son un ritual que Annie y Beth realizan desde hace años en distintas partes del mundo como parte del proyecto Love Art Laboratory, en el que exploran el nexo entre arte, sexualidad y naturaleza. En cada boda se busca afirmar la metáfora de la Tierra como amante más que como madre; desde esa visión se abre un mundo de erotismo a explorar que puede desafiar las prácticas sexuales del orden heterocentrado. Junto a esto, el aporte principal de las bodas ecosexuales es su llamado de atención sobre el deterioro ambiental y un llamado a la protección del medio ambiente. Un nuevo tipo de acción ecológica pensada desde la sexualidad (p. 30-31) [7].

 

Assim, o que nos cabe enquanto organização de um seminário em artes que já nasceu se entendendo enquanto interseccional é convidar que você se una a nós para pensarmos como podemos decompor estes conceitos na construção de conhecimentos envoltos na arte e na sexualidade a partir de provocações da eco-interseccionalidade e da ecossexualidade? Como podemos pensar pesquisa em arte a partir não apenas das ideias de sexualidade que já temos discutido nos anos anteriores do Ars Sexualis, mas agregando essas novas conexões com a natureza, com a ecologia, com nossos organismos, fluidos corporais, sexuais para a criação (ou seriam devires) de narrativas outras e/ou processos de forças criativas? Como provocar a escrita em arte e sexualidade decompondo conceitos como “natureza” e “ecologia” e os conectando a debates como gênero, raça, feminismo, interseccionalidade, arte contemporânea, contrassexualidade, pós-pornografia, pornossexualigrafia, dissidências, história da arte, discursos e dispositivos, teoria queer/cuir/kuir e tantos outros que se fizeram presentes nos nossos debates durante 2021 e 2022?

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[1] ver https://mutha.com.br/2021/05/02/mogli-saura/

[2] ver https://www.instagram.com/_ailtonkrenak/

[3] ver https://www.instagram.com/lauramilanook/

[4] ver https://sprinklestephens.ucsc.edu/

[5] ver https://www.instagram.com/ebethstephens/

[6] tradução nossa: Ecossexual de “eco” da palavra grega oikos e “sexual” do latim sexuales. 1. Uma pessoa que vê a natureza como romântica, sensual, erótica, ou sexy e que pode incluir humanos ou não; 2. Uma nova identidade sexual (auto identificação); 3. Uma pessoa que toma a Terra como sua amante; 4. Um termo usado em anúncios de namoro; 5. Uma estratégia ativista ambiental; 6. Um movimento popular; 7. Uma pessoa que tem um conceito expandido de sexo e orgasmo para além das definições normativas; 8. Uma pessoa que imagina sexo como uma ecologia que se estende para alémd do corpo físico; 9. Outras definições ainda por serem determinadas.

[7] tradução nossa: As bodas ecossexuais são um ritual que Annie e Beth realizam há muitos anos em diversas partes do mundo como parte do projeto Love Art Laboratory, no qual explora o nexo entre arte, sexualidade e natureza. Em cada boda, busca afirmar a metáfora da Terra como amante mais que como mãe. Desta visão se abre um mundo de erotismo a ser explorado e que pode desafiar as práticas sexuais heterocentradas. Para além, o objetivo principal das bodas ecossexuais é chamar atenção para a destruição ambiental e um chamado à proteção do meio ambiente. Um novo tipo de ação pensada a partir da sexualidade.